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BOLA SETE: SHEBABA


As raridades musicais sempre foram nosso alvo. Para relembrar em alto estilo nosso ideal, vamos resgatar em sequência alguns dos principais discos da raíz da música brasileira. Aqueles misteriosos discos chamados pelos gringos especializados de "Brazilian Rare Grooves" - alvos corriqueiros de pesquisadores e colecionadores de plantão. Relíquias, quase sempre, da década de 60, 70 e adjacências. Pra iniciar nossa trabalhosa saga, trazemos o som de Bola Sete (e seus "sete dedos em cada mão")!

Vamos então, resumir (mas nem tanto) sua historia. O carioca Bolsa Sete, Djalma de Andrade de batismo, nasceu no Rio de Janeiro em 16 de Julho de 1923. Já aos três anos de idade identificou-se com o violão de um tio e arriscou as primeiras notas. Cresceu próximo à música e aos 10 anos já mostrava diferenciado talento. Djalma frequentou a Escola Nacional de Música no Rio de Janeiro, onde estudou violão clássico, e formou seu primeiro grupo. Nessa época ganhou o apelido Bola Sete. "Como único músico afro-brasileiro do grupo, a ele foi dado o apelido de Bola Sete. A bola sete no bilhar brasileiro é a bola preta. Ele manteve Bola Sete como seu nome profissional(...) Essa é a história de seu apelido, como foi contada para mim.", conta Anne Sete, ex-mulher de Djalma. Logo aprofundou seus estudos com o mestre Dilermano Reis e partir daí a conversa ficou séria. Assíduo apreciador da música de Django Reinhardt, Barney Kessel, Charlie Christian e Oscar Moore, do trio de Nat King Cole, assimilou bem o que a "Escola do Jazz" tinha pra passar. No final dos anos 50, Djalma resolveu, após varias apresentações na América do Sul, uma experiência pouco notável na Europa e alguns grandes shows nos E.U.A., decidiu mudar-se para a terra do Tio Sam. Onde viveu com uma carreira prestígio e sucesso até 1987!

Agora o que mais nos interessa nessa momento: sua música. Em 1971, lançou um disco que marca seu trabalho e se transforma em objeto-desejo de muitos garimpadores de sebos ao redor do globo. Gravou o estupendo álbum chamado "Shebaba", lançado nos E.U.A. pelo selo Fantasy Records. O disco ganhou importância que alcançava além dos quesitos técnicos. Foi a inédita releitura de Bola Sete sobre a música brasileira de raíz. "Eu gravei 'Shebaba' em 1971 com um quinteto. 'Shebaba' foi o primeiro álbum que eu gravei baseado na música folclórica do Brasil. Toquei os tipos de canções que eu ouvia sendo executadas nas feiras das ruas no Brasil", ressaltou Bola Sete à revista Guitar Player. Além disso, confeccionou especialmente para a gravação deste disco um instrumento chamado Lutar, baseando-se no Alaúde. O Lutar tinha treze cordas, seis duplas e uma simples. Como toda essa bagagem e aparato, o quinteto concebeu um disco fenomenal e irreparável!

Com cinco faixas inéditas de autoria própria, trouxe também o requinte da música popular brasileira com roupagens modernas e inovadoras. Veja o samba-rock entoado em "Baccara", o baião de "Bola Beat" e o groove pesado de "Roda" do Gilberto Gil. A faixa-chefe do disco "Shebaba", traz o peso do swing latino à lá Osibisa. Sem contar a versão virtuosa de "Polythene Pam + She Came In Through The Bathroom Window" e de "My Sweet Lord", respectivamente de John Lenon com McCartney e de G. Harrison. Grooves malemolentes, calorosos e admiráveis. Um disco que apresenta o autêntico sangue musical brasileiro que faz pulsar o coração, balançar o esqueleto e alimentar alma!


Dê o play, macaco!
"[1971] Shebaba"

1. Bola Sete - Shebaba (3:35)
2. Bola Sete - Complicado (3:42)
3. Bola Sete - Bola Beat (3:44)
4. Bola Sete - Polythene Pam + She Came In Through The Bathroom Window (5:58)
5. Bola Sete - Roda (3:47)
6. Bola Sete - It's Gonna Change (3:25)
7. Bola Sete - Melossa (3:09)
8. Bola Sete - Baccara (2:29)
9. Bola Sete - My Sweet Lord (5:11)
10. Bola Sete - Street Market (4:12)
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HUGH MASEKELA & THE UNION OF SOUTH AFRICA


Totalmente grandioso. Da borda ao avesso este disco te preenche sem te deixar notar. Aquele som que bate pesado lá no fundo, tanto da alma quanto do peito. Vibrante forte, instigante e repleto de groove. Bolado em mentes africanas, minuciosamente por Hugh Masekela, Caiphus Semenya e Jonas Gwangwa, agrega valor à essência do funk e do jazz americano. Pouco longe dos repiques e contra-tempos do Afrobeat original, pode ser visto mais próximo do Highlife do que qualquer outro africanidade. Reto, certeiro e frenético como deve ser. Hugh Masekela, o garoto prodígio da "ponta da África", conta com a força da recém-formada banda The Union Of South Africa nesta jornada bem direcionada. Uma obra ordenada a ultrapassar as mágoas contidas na indiferenças sociais da Africa do Sul, em plena década de 60. Pronto a levar a melhor mensagem aos ouvintes, alimentando a esperança e arrancando sorrisos por onde fosse. A sonoridade que leva a este êxtase é mesclada durante o disco é surpreendentemente incrível ou incrivelmente surpreendente!

Lançado originalmente em 1971, pela Chisa Records (e posteriormente relançado pela Motown, em 1994), o disco também chamado "Hugh Masekela & The Uion Of South Africa" mostra face de Hugh voltada diretamente as referências da música negra americana - do timbre e groove funkeado das guitarras até as linhas de jazz da era de ouro de New Orleans. Não vibra somente no jazz-funk nem tampouco no soul tradicional, mas caminha intimamente nestas trilhas harmônicas num incansável cambaleio ritmado. Sempre com a guitarra timbrando firme, bateria marcando sem brechas e metaleira com improvisações de amplidão atmosféricas!

Abrindo o disco, "Goin' Back to New Orleans", é a ponta deste iceberg sonoro - que não se mostra por inteiro mas ainda assim expressa imponência ao primeiro olhar. Logo depois a ligeiro faixa "To Get Ourselves Together", leva o ouvinte um lugar pouco explorado numa onda instrumental de groove profundo. "Mamani", já conta com os delírios maravilhados do trompete de Hugh e as vocalizações afinadíssimas residentes na música ancestral africana. O disco é, de fato, floreado detalhadamente com ótimas faixas. Algo que valoriza ainda mais o disco é o fato de que você não deve ser preocupar em sacar sequer um única música do playlist, todas te satisfarão, garanto! Ouçam a finco e verão altas referências imbuídas, todas muito bem delineadas e fielmente exploradas! Mais uma grande pepita de valor imensurável do ourives da musica africana Hugh Masekela!


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"[1971] Hugh Masekela & The Union Of South Africa"
senha: oficinademacacos.blogspot.com

1. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Goin' Back to New Orleans (5:07)
2. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Ade (3:46)
3. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - To Get Ourselves Together (2:52)
4. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Johannesburg Hi-Lite Jive (3:58)
5. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Mamani (5:25)
6. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Shebeen (4:02)
7. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Dyambo (3:48)
8. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Caution! (5:42)
9. Hugh Masekela & The Union Of South Africa - Hush (Somebody's Calling My Name) (3:34)
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GILBERTO GIL


(art by joaogil)

Recorro ao lirismo da "Consolação" de Vinícius de Moraes, para desconstruir e reconstruir uma parte de um período de auge da música brasileira. E se não tivesse o amor, a dor, o sofrer e o chorar? Este post nem existiria e não teríamos também um riquíssimo filão de peças esculpidas pelos latejos desse amor e da saudade. Ao lado de uma safra de lançamentos, como são os grandes "Caetano Veloso" de 1971 e "Transa" de 1972, que pareavam os compositores brasileiros à tantos outros mundo afora, disponibilizo esta obra datada de 1971 que leva o nome da persona carinhosa em questão. O homem que distribuiu abraços na partida e que não fez por menos na chegada. Falo do neguinho que gosta mesmo é de comer com coentro, nascido da barriga da baiana Claudina, falo é claro, de Gilberto Gil.

Em quase sete minutos de música, "aquele abraço", reverberava no álbum solto em 1969 (ano do exílio) -  canção que mais tarde traria mais efeitos do que de fato esperava-se do verbo e do ato. Quem sabia de Gilberto Gil naquele momento era seu violão, e é este seu fiel comparsa neste registro. Voz e violão constroem caminhos tingidos de vivas cores pelos quais as faixas trilham e brilham. Gil exila-se ainda do território da língua e cantarola todas as canções em um bem fluido inglês, demonstrando extroversão total e uma aparente intimidade com o ambiente escolhido para morar. Neste registro, ele adapta alguns títulos previamente lançados em português, como é o caso da tradução impagável - e, acreditem, melhorada - de "Volkswagen Blues". "Gilberto Gil" (1971) é do início ao fim uma peça que emana as qualidades acima citadas. A faixa "Nega", um blues-rock ritmado e contagiante, já as escancara nos primeiros instantes do álbum. Destaque tanto para os cantos, que por vezes desembocam em banzo enfurecido de arrepiar a alma, como acontece em "Can't Find My Way Home"; quanto para a lisergia, resultado das experiências psicotrópicas do momento, que despertara viagens das mais diversas, ora  volvendo aos moods estrelados e cósmicos do hippismo setentista, como em "The Three Mushrooms", ora indo de encontro com a excentricidade do rock, convidativa à ponto de fazer os seres mais taciturnos sentirem a "Eletricity in the brains" e a "Gasolina in the veins", como pede os versos da faixa "Crazy Pop Rock".

Enquanto Londres era o epicentro do abalo musical - com Beatles, Jimi Hendrix, e os Rolling Stones -, Gil e Caetano tragavam toda essa fumaça sonora que tanto inspiraria suas mentes. Tanto essa 'inspiração' quanto a espontâneidade de Gil enquanto exilado, refletiram diretamente em seu repertório, e o disco fecha com versões ao vivo de três fan-covers empreendidas por ele. A já citada "Can't Find My Way Home", a gravação mais representativa do período, é um épico vocal. Um Gil melífluo, relembra Jimi com "Up From the Skies", e quando já não bastasse levar um Jimi, presenteia e empolga com um trecho de "Baby" de Caetano Veloso. O gran finale fica por conta de uma inspirada e bem-humorada recriação de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band". Ao término do disco, a inexorabilidade presente na brasilidade de Gil, é algo que fica latejando na cabeça. Deplorável é a inversão dos tempos modernos, quando a cegueira causada por fama e fortuna atinge artistas, os fazendo tropeçar em questões primárias e essenciais, como são a percepção e a construção de sua individualidade.


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"[1971] Gilberto Gil"

1. Gilberto Gil - Nega (Photograph Blues) (5:48)
2. Gilberto Gil - Can't Find My Way Home (5:17)
3. Gilberto Gil - The Three Mushrooms (5:38)
4. Gilberto Gil - Babylon (4:19)
5. Gilberto Gil - Volkswagen Blues (4:08)
6. Gilberto Gil - Mamma (3:45)
7. Gilberto Gil - One O'clock Last Morning, 20th April 1970 (4:39)
8. Gilberto Gil - Crazy Pop Rock (4:13)
9. Gilberto Gil - Can't Find My Way Home (Live)* (6:34)
10. Gilberto Gil - Up From The Skies (Live)* (5:11)
11. Gilberto Gil - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Live)* (9:35)
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